Ao menos 20 chefes de Estado, incluindo os presidentes do Brasil e da China, participam da celebração dos 80 anos da vitória soviética na 2ª Guerra Mundial. Evento reforça a tentativa do Kremlin de mostrar influência e construir uma frente simbólica contra o Ocidente.
Vladimir Putin prepara uma demonstração de poder diplomático e simbólico nesta sexta-feira (9), ao reunir em Moscou cerca de 20 chefes de Estado para as comemorações dos 80 anos da vitória soviética sobre a Alemanha nazista, na Segunda Guerra Mundial. Entre os convidados confirmados estão Xi Jinping, presidente da China, e Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil.
O evento marca o Dia da Vitória, data transformada por Putin em um pilar de sua política interna e externa. Para especialistas, a presença de líderes do chamado Sul Global reforça a mensagem de que a Rússia não está isolada, apesar das sanções e críticas ocidentais pela guerra na Ucrânia.
Objetivo geopolítico e propaganda interna
De acordo com Gulnaz Sharafutdinova, diretora do Instituto Rússia do King’s College London, o Kremlin usa o evento como instrumento para “mostrar que ainda possui aliados e que continua relevante no cenário internacional”.
“A presença de lideranças do Sul Global ajuda a reforçar a ideia de uma coalizão antiocidental, com a Rússia assumindo o papel de defensora da autodeterminação dos países não alinhados ao Ocidente”, explica.
Para o historiador Sergey Radchenko, da Universidade Johns Hopkins, o Kremlin construiu uma narrativa baseada no “culto à Segunda Guerra Mundial”, usando o simbolismo da vitória sobre o nazismo como base moral para justificar a atual invasão à Ucrânia.
“A propaganda russa compara diretamente a luta atual contra a Ucrânia ao combate ao nazismo entre 1941 e 1945. É uma tentativa de reviver um passado vitorioso e canalizar o patriotismo da população”, afirma.
Lula e Xi: presenças estratégicas
A presença de Lula em Moscou ocorre antes de sua viagem a Pequim, onde participará do Fórum China-CELAC. O governo brasileiro, por meio do assessor Celso Amorim, afirmou que Lula pretende “levar uma mensagem de paz” às reuniões com Putin e Xi.
No entanto, analistas são céticos sobre a capacidade do Brasil de atuar como mediador efetivo no conflito. “As negociações estão centradas entre Rússia, Ucrânia, EUA e Europa. Lula tem uma postura simbólica, mas pouca influência direta nesse cenário”, diz Sharafutdinova.
Já a presença de Xi Jinping é vista como altamente estratégica. Para o Kremlin, ter o líder chinês ao lado de Putin durante o desfile projeta a imagem de uma aliança sólida entre Moscou e Pequim em um momento de tensões com o Ocidente.
Mensagem global e demonstração de força
As celebrações do Dia da Vitória costumam incluir desfiles militares na Praça Vermelha e exibição de armamentos — embora neste ano o escopo militar possa ser reduzido, já que muitos equipamentos estão mobilizados na guerra na Ucrânia.
Para o Kremlin, o simples fato de garantir a segurança de dezenas de líderes estrangeiros em Moscou, mesmo durante um conflito ativo, reforça a ideia de controle e autoridade.
Ausências e tensões diplomáticas
Nem todos os convidados aceitaram o convite russo. Donald Trump, presidente dos EUA, recusou a presença. O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, também não participará, devido ao agravamento das tensões com o Paquistão.
A presença do primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, chamou atenção. Mesmo com alertas da União Europeia, Fico declarou: “Ninguém pode me dizer para onde ir ou não ir”. A participação de líderes europeus pode ser interpretada como desafio direto ao bloco europeu.
Entre diplomacia e propaganda
Mais do que uma celebração histórica, o evento desta sexta-feira é uma plataforma política para Vladimir Putin. Ao atrair chefes de Estado do Hemisfério Sul, ele tenta consolidar a Rússia como uma alternativa ao Ocidente e afirmar sua liderança em um novo eixo geopolítico global.
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Mesmo em meio a uma guerra, o Kremlin quer deixar claro: a Rússia segue influente, conectada e com aliados estratégicos — reais ou simbólicos.