Mujica relembra fuga espetacular da prisão e anos de confinamento

Mujica relembra fuga espetacular da prisão e anos de confinamento solitário

Montevidéu (Uruguai) — Antes de se tornar uma das figuras políticas mais admiradas do mundo, o ex-presidente uruguaio José “Pepe” Mujica viveu como militante do Movimiento de Liberación Nacional-Tupamaros (MLN-T), grupo guerrilheiro urbano ativo nas décadas de 1960 e 1970. Durante esse período, ele passou por prisões, torturas e protagonizou uma das fugas mais audaciosas da história recente da América Latina.

Em entrevista ao podcast Witness History, da BBC, Mujica relembrou sua trajetória, marcada por quase 12 anos de encarceramento — muitos deles em confinamento solitário — e por uma fuga histórica da prisão de Punta Carretas, em 1971, ao lado de mais de 100 companheiros, através de um túnel escavado de dentro para fora.

A fuga do túnel: engenho e solidariedade

A fuga, batizada de “El abuso”, envolveu meses de preparação. Mujica e os colegas presos planejaram cavar um túnel a partir do interior da prisão, algo nunca antes tentado. Utilizaram ferramentas improvisadas, como fios de cama e correntes de banheiro, e disfarçaram os buracos com uma mistura de cimento, farinha, café e erva-mate para imitar a cor das paredes.

Com ajuda de presos comuns e subornos estratégicos, os tupamaros conseguiram iniciar a escavação a partir de uma cela no andar inferior. A terra era escondida em sacos debaixo das camas. Ao longo de mais de um mês, cavaram um túnel até atravessar a rua.

Na noite marcada para a fuga, companheiros do lado de fora ocuparam casas vizinhas e usaram estetoscópios para ouvir os sons dos prisioneiros escavando. A operação foi auxiliada por uma festa organizada em uma paróquia próxima para desviar a atenção das autoridades.

Mais de 100 pessoas escaparam da prisão naquela noite, entre militantes e presos comuns. Dois caminhões foram usados para transportar os fugitivos em segurança.

Amor em meio à resistência

Durante a fuga, Mujica conheceu Lucía Topolansky, que mais tarde se tornaria sua esposa e companheira de vida e militância. Ela participava das ações externas de apoio ao grupo e colaborava com os Tupamaros, inclusive repassando documentos confidenciais obtidos enquanto trabalhava em um banco.

“Nos encontramos em uma noite de fuga. Estávamos sob risco constante, e nessas situações o amor se torna um refúgio instintivo”, disse Mujica.

Quase 12 anos em celas solitárias

Após ser recapturado, Mujica passou quase 12 anos preso, a maior parte do tempo em solitárias em quartéis militares. Ele ficou meses sem acesso a livros, submetido a condições insalubres, torturas físicas e psicológicas, e longos períodos amarrado com arames.

Mesmo em situações extremas, Mujica encontrou maneiras de manter a sanidade. No quartel de Paso de los Toros, ele cuidava de pequenas rãs que apareciam em sua cela e descobriu que formigas produzem sons perceptíveis ao serem aproximadas do ouvido.

“Aprendemos que sempre é possível estar pior. Mas também que mesmo no pior, é possível encontrar beleza e resistência”, relatou.

Libertação e reconstrução

Em março de 1985, com a redemocratização do Uruguai, Mujica foi libertado junto com outros companheiros. Foi um dos primeiros a sair, encarregado de encontrar um local seguro para reencontrar os demais. Reuniu-se com Lucía pouco depois e, desde então, o casal não se separou mais.

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Mais tarde, Mujica abandonaria a luta armada e ingressaria na política institucional. Ele foi eleito presidente do Uruguai em 2010, ganhando destaque internacional por seu estilo de vida austero, linguagem simples e valores humanistas.